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Smart Sampa expõe 58 mil câmeras em SP: veja se o seu CPF foi afetado

Acesso ao sistema de câmeras ficou aberto por cerca de 11 meses, e o painel permitia consultar nome, CPF e placa. A prefeitura confirma o vazamento, mas nega falha de segurança. Veja o que cada lado diz.

Câmera de monitoramento urbano sobre fundo azul, ilustrando o vazamento do Smart Sampa
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O vazamento do Smart Sampa deixou acesso ao sistema de câmeras de São Paulo aberto na internet por cerca de 11 meses. Segundo o UOL, foram 181 logins e senhas, dados de mais de 6 mil agentes e o código-fonte. O painel permitia consultar nomes, CPFs e placas. A prefeitura confirma o vazamento, mas nega falha de segurança e diz que não havia senhas. Não há lista pública de moradores afetados.

O que é o Smart Sampa

O Smart Sampa é o sistema de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo, inaugurado em julho de 2024. Ele reúne câmeras públicas e privadas em uma central e usa reconhecimento facial, entre outras funções, para localizar foragidos.

O sistema é operado pela empresa Sentinelx, em um contrato estimado em R$ 588 milhões ao longo de cinco anos, segundo o Tecnoblog. A prefeitura fala em mais de 58 mil câmeras conectadas.

O que vazou, segundo o UOL

A reportagem do UOL, de 20 de outubro, encontrou material em um repositório aberto na internet que ficou acessível por cerca de 11 meses. O que as matérias descrevem:

  • 181 combinações de login e senha de usuários autorizados, algumas dando acesso à plataforma da Sentinelx.
  • Dados de mais de 6 mil agentes de segurança: nome, CPF e placa de viatura, além de boletins de ocorrência.
  • O código-fonte e arquivos que permitiam reproduzir funções da central em outros dispositivos.
  • Consultas por nome, CPF e placa de veículo, segundo o Tecnoblog e O Globo.
  • Imagens ao vivo de ruas, escolas, creches, postos de saúde e hospitais.

Em um dos testes, um repórter foi a uma rua do bairro Campos Elíseos, no centro, e acenou diante de quatro câmeras. A equipe conseguiu acompanhar o movimento em tempo real.

O que a prefeitura diz, e onde as versões divergem

A Prefeitura confirmou o vazamento, mas nega falha de segurança. A gestão atribui o caso a um agente da Guarda Civil com acesso autorizado, aprovado em concurso de 2023, que divulgou os dados ilegalmente. Segundo a prefeitura, ele foi exonerado e é investigado pela Corregedoria da GCM. Ela chama o caso de ação criminosa individual.

Há três pontos em que as versões não batem:

  • Senhas. O UOL fala em 181 logins e senhas. A Secretaria de Segurança Urbana afirmou a O Globo que o material vazado não continha senhas de acesso.
  • Falha ou crime isolado. A prefeitura diz que a rede segue "absolutamente segura". Especialistas ouvidos por O Globo discordam (veja abaixo).
  • Conhecimento prévio. A gestão diz que já conhecia a conduta e monitorava a vulnerabilidade como uma "isca" para rastrear invasores. Não explicou por que o repositório ficou aberto por 11 meses.

A prefeitura também admitiu, segundo O Globo, não ter acesso ao código-fonte, não fazer auditorias externas independentes e desconhecer os critérios de treinamento dos algoritmos de reconhecimento facial, que ficam com a empresa contratada.

O que os especialistas apontam

O Globo ouviu especialistas, que apontam falhas de arquitetura:

  • O acesso ao painel não exigia autenticação em duas etapas e usava senhas elementares ligadas aos cadastros dos guardas, segundo o UOL.
  • Não parecia haver auditoria do uso das credenciais, que podiam ser usadas em locais diferentes sem registro, segundo o professor Jéferson Campos Nobre, da UFRGS.
  • Canais que recebem dados de placas e rostos, sem verificação rigorosa da origem, poderiam permitir inclusão de registros forjados na base oficial.
  • A pesquisadora Lígia Ribeiro dos Anjos alerta que quem tivesse acesso às imagens e à localização das câmeras poderia, em tese, criar uma ferramenta para acompanhar os deslocamentos de uma pessoa pela cidade.

A prefeitura respondeu que protocolos como a autenticação em duas etapas são adotados "de forma gradativa" e que, em três meses, todos os operadores do painel terão de fazer recadastramento com reconhecimento facial.

Quem investiga

  • Ministério Público de São Paulo: a Promotoria do Patrimônio Público abriu, de ofício, uma notícia de fato. Ainda não é investigação formal. O promotor sorteado decidirá se abre inquérito civil.
  • Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana: apura a conduta do agente.
  • ANPD: a Coalizão Direitos na Rede e outras nove organizações pediram fiscalização e medidas sancionatórias contra a prefeitura e a Sentinelx. A ANPD informou que vai analisar o pedido. Segundo o Mobile Time, a prefeitura não respondeu se comunicou o incidente à autoridade.
  • Sentinelx: não respondeu a O Globo até o fechamento da reportagem.

Meu CPF foi afetado?

A resposta honesta hoje é: não se sabe. O que está documentado:

  • O CPF de mais de 6 mil agentes estava no material.
  • A brecha permitia pesquisar CPFs, registros de veículos e históricos de ocorrências, segundo O Globo. Ou seja, o painel dava acesso a dados de pessoas fora da corporação.
  • A prefeitura diz que não há registros de uso indevido por terceiros. Mas também diz não ter auditoria externa, e especialistas dizem que o uso das credenciais não era rastreado.
  • Nenhuma lista de pessoas consultadas ou afetadas foi divulgada.

Leitura da LDD: um boletim de ocorrência costuma conter dados de quem registrou o caso e de quem aparece nele. Quem já esteve em uma ocorrência na capital paulista deve tratar qualquer contato que cite esse fato como suspeito até confirmar.

O que fazer agora

  1. Peça informações à prefeitura. Pela LGPD (art. 18), você pode pedir confirmação de que seus dados são tratados e como. O pedido fica registrado.
  2. Desconfie de contato que cite sua ocorrência ou seu veículo. Golpista usa dado real para parecer legítimo, como no golpe do falso advogado.
  3. Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp, no e-mail e nos bancos.
  4. Acompanhe o seu CPF. O Registrato, do Banco Central, mostra contas, chaves Pix e dívidas ligadas ao seu CPF.
  5. Guarde a data de hoje. Se algum dia um golpe usar um dado seu, a data do vazamento ajuda a sustentar um pedido de explicação.

Por que isso importa mesmo se não foi com você

O caso mostra um padrão: dado sensível de quem o governa é tão forte quanto a senha mais fraca de quem tem acesso. Mais de 7.500 agentes têm acesso ao sistema, segundo a prefeitura. Basta uma credencial exposta.

E mostra o ciclo que sustenta os golpes: dado vazado vira ligação convincente. Quanto mais dados reais sobre você circulam, mais fácil é montar o roteiro.

Seu nome está exposto onde você não autorizou?

Quanto mais fácil é achar o seu nome e os seus dados na internet, mais convincente fica o golpe. A Limpa Dados Digital ajuda a remover a exposição do seu nome nos buscadores e sites que copiam dados, com base na LGPD. Veja como remover seu nome do Google.

Fontes consultadas
  • UOL, 20/10/2026: reportagem que revelou o vazamento (citada pelos veículos abaixo).
  • O Globo, 20/10/2026 (apuração do MP-SP e nota da prefeitura) e 21/10/2026 (análise de especialistas, ANPD, resposta da prefeitura).
  • Tecnoblog, 20/10/2026: repositório exposto, contrato da Sentinelx e teste do repórter.
  • TV Sim Brasil, 20/10/2026: 181 credenciais e dados de mais de 6 mil agentes.
  • Mobile Time, 20/10/2026: pedido à ANPD e resposta da prefeitura.

Perguntas frequentes

O Smart Sampa vazou senhas ou só dados de agentes?
O UOL diz que foram 181 logins e senhas, dados de mais de 6 mil agentes e o código-fonte. A Secretaria de Segurança Urbana afirmou a O Globo que o material não continha senhas de acesso. Os dois lados confirmam que houve vazamento por um agente com acesso autorizado.
O painel vazado permitia consultar o CPF de moradores?
Segundo O Globo, a brecha permitia pesquisas em um banco com CPFs, registros de veículos e históricos de ocorrências. A prefeitura diz que não há registro de uso indevido por terceiros, mas nenhuma lista de pessoas consultadas foi divulgada.
O que a ANPD pode fazer no caso do Smart Sampa?
A Coalizão Direitos na Rede e outras nove organizações pediram à ANPD fiscalização e medidas sancionatórias contra a prefeitura e a Sentinelx. A ANPD informou que vai analisar o pedido, e ainda não há decisão. A LGPD prevê sanções administrativas para quem trata dados.
O Ministério Público já abriu investigação?
Ainda não formalmente. A Promotoria do Patrimônio Público instaurou de ofício uma notícia de fato, e o promotor sorteado vai decidir se abre inquérito civil. A Corregedoria da Guarda Civil investiga a conduta do agente afastado.